BEETHOVEN

 

 

Trancado no silêncio

daquele estúdio etéreo de verniz abandono e nuvem esgarçada,

com os olhos cerrados como as asas negras de duas pombas bêbadas,

a cabeleira vasta despejada na  angulosa têmpora,

esta que vai,

apertada sobre a chapa de ébana cauda recolhida do piano,

à moda dum índio adivinhando a caça

com o ouvido varrendo o chão da estrada,

o compositor de ouvidos imprestáveis a normais alentos

acaricia o veludo dos teclados mudos e

na débil vibração da mariposa asa do pensamento

ciciando intentos sobre as tensas cordas embutidas,

tenta seduzir o instrumento duro

para cálice de toda a fabulosa harmonia

que revolve-se em piscosos oceanos de alvorada

nos incendiados planetas da sua vultosa alma.

 

Seu coração traz himalaias embandeirados,

vencedores ícaros, planícies conquistadas,

cavalgadas de crepúsculo, águias com fogo em asas.

Pulsa todo o sangue da essência da existência

na quentura com que o peito, batendo suspiros,

recorda ao instrumento a saudade filial do bosque,

na seiva antes adormecida na madeira aparelhada

e agora, em urgência, convocada.

E ali ficam,

o piano nunca mais móvel, instrumento ou  artefato,

e nunca mais imóvel, mas ser vivente,

antena, ouvidos, receptáculo, mensageiro,

colhendo de outro ser vivente, gota a gota, a prosódia do milagre,

até que, como se fosse a única coisa que ao mundo escasseasse,

a lágrima clave desce em paixão cristalina pelos olhos apertados e,

caída na madeira, e escorrida no marfim,

a este toque a criação se faz completa,

o alumbramento se vê,

sem que se veja movida uma tecla ou sonora onda qualquer,

um reles solfejo sequer.

Surge então, a imortal sinfonia do cárcere do silêncios vencidos,

dos desertos derrotados, das prisões derretidas,

porque o piano lembra de suas chuvas, quando bosque era

e o marfim recorda seus pastos quando em bicho andava,

e assim o compositor sem tímpanos,

com a alma que se multiplica e enfim, fala,

ouve, do que aos outros é nada,

soante e parida, um bezerro agora há pouco nascido,

sua música sublime de tempestades adestradas,

de meninos cantando, de pedras soando, de brisas,

de rios com lavadeiras salmodiando,

de pássaros clarins sobre campônios e heróis festejando,

e a reproduz nas catedrais dos séculos ecoando seus triunfos,

seus carinhos, suas vivendas,

por sobre todos os silêncios,

enchendo todos os vasos do universo e

transbordando de estrelas todos os recipientes

como vinhos melhores que chegam da Galiléia por último,

em Caná multiplicando em ternuras de luz macia,

a imortal alegria.

Assim Beethoven faz, a cada ouvida,

essa casa larga, quente e bem servida

onde toda alma viva pode aprender seu lar.